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Jovem, vítima de estupro em Pomerode, quebra o silêncio e fala sobre o crime

Casos de estupro, muitas vezes, não são denunciados ou caem no esquecimento pelo medo da vítima em sofrer julgamentos. Porém, jovem pomerodense quebra o paradigma e revela agressão sofrida

d1eca81d89abe5a6f7d16f8d074af944.jpg Foto: Tatiane Hansen / Jornal de Pomerode

De acordo com os mais recentes dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados em 2018, Santa Catarina é o segundo estado brasileiro com mais registros de boletins de ocorrência relacionados ao crime de estupro. Os números apontam que o índice de casos denunciados de violência sexual consumados cresceu 9,8% em 2017. Isso porque o número total de registros no estado passou de 3.588 em 2016 para 3.993 em 2017.

Ainda, o índice de denúncias de estupros cresceu de 51,1 a cada 100 mil habitantes, em 2016, para 57 casos no ano seguinte. Com isso, o estado fica atrás apenas do Mato Grosso do Sul, que já liderava o índice em 2016 e tem taxa de 66 casos de estupros registrados a cada 100 mil habitantes.

Apesar de alarmante, a Polícia Civil considera que o número é resultado do acesso facilitado às vítimas, já que em outras regiões do país "há mais dificuldade em fazer a denúncia".

Em Pomerode, foi registrado neste mês o primeiro caso de estupro do ano. A vítima, porém, fugiu à regra e teve a coragem de denunciar, além de relatar o ocorrido em redes sociais. Samantha Schubert, de 24 anos, voltava para casa no domingo a noite, dia 02 de junho, quando foi surpreendida pelo agressor, a cerca de 200 metros de sua casa, na Rua dos Atiradores.

"Eu estava em Blumenau e peguei o ônibus das 22h10min. Cheguei em Pomerode por volta das 22h45min e desci no ponto às margens da rodovia. Depois, fui caminhando para a casa, como em outras situações normais. No caminho não notei ninguém estranho ou caminhando próximo a mim, mas a minha rua é escura e estava deserta naquele dia. Eu liguei a lanterna do meu celular e fui caminhando. Quando cheguei em uma parte mais alta da rua, quase na metade do caminho até minha casa, o homem apareceu e a minha primeira reação foi correr. Eu senti muito medo naquela hora”, relata a vítima.

Ela relembra que foi deixando suas coisas pelo caminho enquanto corria em direção à sua casa, mas acabou sendo alcançada pelo autor do crime. A jovem tentou resistir ao crime, se debateu, agrediu o autor, mas não pode evitar a ação. E, após o abuso sexual ser concretizado, em choque e desesperada, Samantha se levantou e acabou encontrando o celular, que estava com a lanterna ligada. A jovem ligou para a sua mãe, que chamou a Polícia.

“Os policiais foram muito prestativos quando chegaram. Eles procuraram pelo suspeito, mas não acharam ninguém. À 01h fui para o hospital daqui de Pomerode com minha família, escoltada pela PM, onde fiquei em uma sala privada, sendo muito bem atendida pela equipe de enfermagem. No local, também recebi todos os remédios necessários naquele momento”, afirma.

A jovem foi com a família para Blumenau, pois é lá que o médico legista, responsável pelo exame de corpo de delito, atende. Samantha conta que recebeu a informação de que, logo que chegasse, seria atendida. Porém, não foi o que aconteceu e ficou esperando das 04h às 8h do dia seguinte, em um corredor dividindo espaço com outras pessoas.

“Eu me senti muito mal ali, exposta. Estava ainda com a roupa toda rasgada e só queria poder tomar um banho. Eu perguntei sobre o médico legista e me avisaram que ele poderia demorar, então fui para a casa da minha avó, que mora em Blumenau, e lá tomei um banho, pois era tudo o que eu queria”, comenta.

 

Eu me senti muito mal ali, exposta. Estava ainda com a roupa toda rasgada e só queria poder tomar um banho. 

 

O próximo passo foi ir à Delegacia de Polícia Civil registrar o Boletim de Ocorrência e de lá seguiu para o Instituto Médico Legal (IML) para realizar o exame de corpo de delito, que pode ajudar a encontrar o suspeito de ser autor do crime.

A jovem, agora, revela que o sentimento é de insegurança, pois a sensação de que nunca algo tão violento acontecerá consigo desapareceu. Inclusive, revela que a família já discutiu sobre se mudar dali, por medo.

Ao fazer a postagem em sua rede social, Samantha revela que a intenção foi de realizar um desabafo para pessoas próximas, mas que também pensou nas outras meninas e mulheres vítimas de abusos e, ainda, em todas as mulheres que estão vulneráveis a isso.

“Sempre lutei contra agressões e abusos contra mulheres e, muitas vezes, elas se calam, não têm voz e é isso que os agressores querem. Eu pensei: não quero ser essa mulher, então dali surgiu a ideia da postagem. Pensei nas meninas que saem à noite da escola e nas mulheres da empresa e não quero que isso aconteça com outra pessoa”, ressalta Samantha.

 

Sempre lutei contra agressões e abusos contra mulheres e, muitas vezes, elas se calam, não têm voz e é isso que os agressores querem. 

 

A jovem também admite que não pensava ter tanta coragem para relatar a sua experiência, mas espera que isso mostre a importância da denúncia, em casos de abuso.

“A única pessoa que deve ter vergonha é quem agrediu. A vítima jamais deve ter vergonha, não interessa a hora que está na rua, não interessa a roupa que está usando. Eu não me acho corajosa, na verdade, penso que poderia ter sido a minha irmã, de 13 anos, ou a minha mãe, e me considero mais forte hoje. Vejo que as mulheres não devem se omitir, precisam falar, precisam denunciar, pois é importante mostrarmos que somos fortes. O agressor quer que você se sinta reprimida, essa é a vitória dele, o sofrimento da vítima, e não podemos deixar isso acontecer”.

O agressor quer que você se sinta reprimida, essa é a vitória dele, o sofrimento da vítima, e não podemos deixar isso acontecer.

O caso está agora nas mãos da Polícia Civil de Pomerode, que irá investigar o crime. Em seu depoimento, a jovem já informou as características do agressor. De acordo com Samantha, ele era moreno, usava roupas pretas e aparentava ter cerca de 1,80m. “Nós estamos dando prosseguimento à investigação e trabalhando com as informações que a vítima nos repassou. O médico já comprovou que houve a violação, só precisamos aguardar o resultado completo do exame de corpo de delito”, afirma o delegado Rodrigo Marchetti.

Ele também afirma que a primeira coisa a se fazer é ligar para a PM e procurar também o atendimento médico, que é garantido pela Lei do Minuto Seguinte, pois também há um protocolo a ser seguido para evitar constrangimentos. Lá, a vítima deve receber a atenção médica a possíveis ferimentos, bem como o coquetel de remédios para evitar doenças.

O delegado também orienta que cuidados como evitar locais mal iluminados, evitar andar sozinha e estar atenta à movimentação ao redor, podem ajudar a evitar casos como este.



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